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A Opinião de Elsa Henriques, Executive Board Member da FLAD

A Opinião

de Elsa Henriques, Executive Board Member na FLAD

Reflexões sobre a especificidade das parcerias Universidade-Indústria

Nas últimas décadas temos assistido a um forte aumento no número de iniciativas de investigação envolvendo parcerias entre empresas e universidades. Diferentes razões podem estar na origem desta tendência. Certamente podemos apontar o facto de as empresas quererem reduzir o risco e os elevados investimentos normalmente associados à investigação com níveis baixos na escala TRL e, como tal, ainda com uma fase de mercado pouco definida e muito incerta. Mas é também razoável pensar que as políticas públicas têm canalizado orçamentos públicos insuficientes para a investigação puramente académica e estimulado uma investigação mais orientada para a economia e para o desenvolvimento da sociedade. O que é certo é que quer as empresas, quer as universidades se têm mostrado muito mais abertas a alinharem as suas estratégias e a forjarem relações colaborativas de longo prazo.

Mas, se existem fortes motivações para o estabelecimento de parcerias, a verdade é que ambos os lados enfrentam obstáculos familiares. As empresas têm como objetivo criar valor para os acionistas (e outras partes interessadas). Mesmo as empresas em fase de arranque, devem proporcionar retorno aos investidores. O compromisso das universidades é com os estudantes e o grande propósito da comunidade académica reside na geração de conhecimento como fim último. A cultura académica incentiva a abertura e os investigadores são motivados a partilhar e publicar as suas descobertas. Em contraste, a cultura corporativa é mais resguardada, uma vez que a inovação precisa de ser monetizada para se assumir como um fator de competitividade.

São efetivamente diferentes culturas e duas perspetivas distintas do processo de investigação e descoberta. Contudo, a cultura destas organizações está a mudar rapidamente. O ambiente académico tem evoluído no sentido de valorizar cada vez mais o impacto social das suas descobertas. O ambiente corporativo começa a entender a abertura ao exterior não como uma ameaça, mas como vantagem competitiva num contexto de grande complexidade e rápida evolução. As duas agendas, se devidamente trabalhadas, podem ser integradas e confluir numa estratégia de parceria com ganhos para ambas as partes e com benefícios inegáveis para a sociedade.

O primeiro passo envolve a capacidade de desenvolver uma relação de confiança o que nem sempre é linear em parcerias de investigação. É que aqui nem todas as eventualidades podem ser pré-definidas, uma vez que dificilmente podem ser todas antecipadas. E quanto mais extensa e detalhada for a regulação introduzida em contratos e protocolos, menos flexível será a parceria quando, face a eventualidades e resultados não esperados, precisar de se adaptar e de se ajustar para atingir os objetivos e o benefício mútuo. Como também não se passam “cheques em branco”, percebe-se que o desempenho das parcerias está diretamente relacionado com a relação de confiança que une os envolvidos.

Não sendo de todo uma questão de fé, estabelecer a relação de confiança exigida numa parceria requer um processo lento de construção. De facto, está em causa um patamar diferente face à confiança envolvida numa transação comercial onde a partilha de informação e conhecimento se resume ao estritamente necessário para cumprir a transação com sucesso. Uma parceria de investigação tem que ser alicerçada na criatividade conjunta, na discussão aberta e em compromisso continuado para serem conseguidos resultados superiores fundamentados no conhecimento e na geração de impacto económico. Percebe-se assim que a literatura descreva a confiança como o quociente entre (credibilidade + confiabilidade + intimidade) e a auto-orientação, sendo esta última entendida como a intensidade do foco da organização em si própria.

Pode então dizer-se que parcerias profícuas entre a academia e o tecido empresarial são de desenvolvimento complexo e, mesmo que todas as condições estejam presentes em termos de capacidade e competências, requererem tempo para a sua maturação. É hoje reconhecido por todos que nas duas últimas décadas os ecossistemas académico, científico e empresarial de base tecnológica em Portugal experienciaram profundas evoluções e, em particular, ampliaram significativamente as suas capacidades de interação e cooperação em prol de uma maior competitividade económica e de uma maior capacidade de afirmação nos mercados globais com produtos e serviços de grande valor acrescentado. Contudo, e em particular no que se refere a parcerias entre a academia e as empresas no domínio da investigação avançada Portugal possui ainda debilidades significativas. É necessário promover e enfatizar a colaboração ao nível de novos programas doutorais que integram, com as exigências de qualidade científica, a abordagem de problemas industriais e tecnológicos relevantes, privilegiando a inovação e o impacto no desenvolvimento, o empreendedorismo e a empregabilidade em ambiente empresarial, integrados em projetos de investigação competitivos em áreas críticas para a sustentabilidade do Planeta e das sociedades humanas.

Neste contexto, a Câmara de Comércio Americana e as empresas que representa manifestaram o seu desapontamento pela comunicação, no passado mês de novembro, da cessação, sem renovação perspetivada, das parcerias internacionais com algumas das mais prestigiadas universidades norte-americanas. Importa certamente refletir e em função do que se aprendeu melhorar as parcerias. Mas importa fundamentalmente não descontinuar um processo considerado como uma pedra basilar para a inovação e empreendedorismo de base tecnológica e para uma academia ao serviço da sociedade por todos aqueles que ao longo do tempo se quiseram envolver.

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