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A Opinião

A Opinião

de Cristina Castanheira Rodrigues, CEO da Capgemini Portugal

Índia constrói pontes para a competitividade num mundo dominado por blocos

O momento da Índia: como a maior democracia do mundo se tornou peça central no novo tabuleiro da globalização

Num tabuleiro geopolítico cada vez mais fragmentado, a Índia deixou de ser apenas um mercado emergente para se afirmar como pivot internacional capaz de dialogar com Washington e de cooperar com Bruxelas, preservando a autonomia estratégica que lhe confere credibilidade junto do Sul Global. Num tempo em que tarifas, sanções e incentivos industriais voltaram a moldar alianças, esta capacidade de construir pontes constitui um ativo de rara valia.

A recente aceleração da parceria entre a Índia e a União Europeia, consumada na conclusão do acordo de comércio livre descrito como a mother of all deals, traduz esta nova centralidade com eloquência. Em consonância com uma estratégia europeia mais ampla de diversificação de mercados e aprofundamento de relações bilaterais, visível também nas parcerias firmadas com outros grandes blocos económicos, este entendimento reforça a resiliência das cadeias de abastecimento europeias e amplia o seu espaço de atuação externa. Para a Índia, representa a abertura de mercados, a atração de investimento e a consolidação de uma transição para uma economia de escala verdadeiramente global. No plano transatlântico, esta dinâmica acrescenta um terceiro eixo de equilíbrio: uma Europa mais próxima da Índia torna-se mais resiliente e mais capaz de navegar a incerteza económica e geopolítica.

A cooperação entre a UE e a Índia em tecnologia, conectividade e segurança aponta para uma convergência entre democracias que procuram conciliar competitividade com regras e previsibilidade, abrindo uma dimensão que transcende largamente o comércio. Para as empresas que operam entre os EUA e a Europa, esta triangulação oferece um espaço estratégico para ampliar mercados, reduzir dependências críticas e acelerar a inovação, sem ceder a uma lógica rígida de blocos.

Para a Capgemini, a Índia ocupa um lugar central nesta equação, afirmando-se simultaneamente como hub global, capaz de suportar transformações digitais de ponta a ponta para clientes na Europa, na América do Norte e na Ásia, bem como um laboratório avançado das tecnologias que irão moldar a próxima década. A corrida à industrialização de soluções de inteligência artificial que assinala a passagem da fase dos projetos piloto à implementação em larga escala, com governação, segurança e integração nos processos, exige profundidade de competências e capacidade de entrega. Dois aspetos que a Índia reúne como poucos territórios no mundo. Daí a relevância de modelos como os Global Capability Centers, que aceleram a inovação, modernizam plataformas e fortalecem a cibersegurança, bem como de alianças tecnológicas que transportam a nova vaga de IA empresarial para o terreno do valor mensurável.

Em Portugal, onde a transformação digital permanece uma prioridade competitiva, esta ponte tem implicações concretas. Ao combinar proximidade ao cliente e conhecimento setorial local com escala e especialização globais, conseguimos encurtar ciclos de entrega e elevar a ambição dos programas, da cloud à engenharia, dos dados à experiência do cliente.

A Capgemini é hoje uma multinacional com centenas de milhares de profissionais e presença em mais de cinquenta países. A Índia concentra uma parte decisiva dessa capacidade, enquanto em Portugal reforçamos hubs e parcerias que nos permitem servir o mercado, exportar talento e conhecimento. Num mundo de incerteza, quem constrói pontes ganha opções e a Índia é hoje uma das pontes mais consequentes para a próxima fase da globalização,  um convite à ação, com pragmatismo e sem demora.

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