A Opinião

de Manuela Vaz, Presidente da Accenture Portugal
A Inteligência Artificial (IA) deixou definitivamente de ser uma promessa tecnológica para se afirmar como uma das principais forças de transformação das empresas e das economias. Hoje, já não falamos apenas de eficiência ou automação: falamos de crescimento, reinvenção e vantagem competitiva. Mas, à medida que a ambição tecnológica aumenta, torna-se mais claro que o verdadeiro diferencial não está apenas na sofisticação das ferramentas. Está, sobretudo, na capacidade das organizações para mobilizar pessoas, transformar cultura e construir as fundações certas para escalar essa mudança.
Depois de dois anos de aceleração sem precedentes, os líderes empresariais entram em 2026 com renovada confiança. A IA passou a ocupar um lugar central na agenda estratégica, não como uma tecnologia complementar, mas como um motor de criação de valor. O estudo Accenture Pulse of Change 2026 confirma-o: uma larga maioria dos executivos prevê reforçar o investimento nesta área e 78% já reconhecem a IA como um fator determinante para o crescimento das receitas. O sinal é claro. A IA entrou numa nova fase de maturidade.
Mas essa confiança convive com uma realidade mais exigente. Porque, apesar do entusiasmo e do investimento, continuam a existir fragilidades humanas e organizacionais que limitam a transformação do potencial tecnológico em valor concreto, transversal e sustentável.
O primeiro desafio é, desde logo, humano. O mesmo estudo revela um contraste expressivo: enquanto 82% dos líderes antecipam um nível de mudança superior ao de 2025, apenas 38% dos colaboradores acreditam que as suas organizações estão efetivamente preparadas para responder à disrupção tecnológica. Este desfasamento entre a visão da liderança e a perceção das equipas não é apenas um detalhe de alinhamento interno. É um sinal de risco. Porque nenhuma estratégia de transformação é verdadeiramente sólida se as pessoas não se reconhecerem nela.
Essa tensão torna-se ainda mais evidente quando se olha para a adoção prática da IA. Apesar do ritmo acelerado de investimento, apenas um terço dos executivos afirma ter alcançado um impacto sustentado e transversal em toda a organização. Nunca se investiu tanto, nunca se falou tanto de IA, e ainda assim os resultados permanecem aquém do potencial anunciado. A explicação, em larga medida, continua a passar pelas pessoas. Apenas uma minoria se sente coautora da mudança. E isso diz-nos algo essencial: não basta definir a estratégia certa. É preciso comunicá-la com clareza, envolver, capacitar e criar confiança. Caso contrário, corre-se o risco de acelerar a reinvenção sem alinhar o talento que a torna possível.
A boa notícia é que a disponibilidade para aprender existe. Muitos profissionais reconhecem ter desenvolvido novas competências e acreditam que uma formação mais clara e direcionada os tornaria mais confiantes no uso da IA. O talento não está em falta. O que muitas vezes falta é o contexto certo para o ativar. Formar é essencial. Mas inspirar, mobilizar e dar sentido à mudança é o que transforma uma agenda tecnológica num verdadeiro projeto coletivo.
Há uma segunda dimensão crítica que não pode ser ignorada: a prontidão das arquiteturas empresariais. Porque não há IA à escala sem uma base tecnológica capaz de a suportar. Muitas organizações já têm ambição, casos de uso relevantes e vontade de avançar. O problema surge quando tentam construir essa ambição sobre ambientes fragmentados, dados dispersos, sistemas legados e modelos de governação que não respondem às exigências desta nova era.
Também aqui os dados são esclarecedores. No estudo Pulse of Change, 35% dos líderes identificam a existência de uma estratégia de dados robusta e de capacidades digitais de base como o principal acelerador da implementação e escalabilidade da IA. Isto significa que as organizações compreendem que a corrida à IA não se ganha apenas ao nível das aplicações ou dos modelos. Ganha-se com um núcleo digital forte, com dados fiáveis e bem governados, interoperabilidade entre plataformas, segurança incorporada desde a origem e arquiteturas desenhadas para crescer. No entanto, apenas 11% afirmam já ter essas condições criadas.
Esta é uma questão decisiva. O valor da IA não resulta da adoção isolada de ferramentas. Resulta da sua integração no centro do negócio. A IA só gera impacto duradouro quando está ligada aos processos, às operações, à experiência de clientes e colaboradores e à própria tomada de decisão. Os nossos estudos mostram, aliás, que as empresas com processos liderados por IA superam os seus pares e que 74% das organizações dizem já que os investimentos em IA generativa e automação cumpriram ou excederam as expectativas. Ainda assim, apenas 16% afirmam ter processos totalmente modernizados e liderados por IA. A distância entre o potencial e a execução continua, por isso, a ser significativa.
É precisamente nesta convergência entre talento e arquitetura que se decidirá a competitividade dos próximos anos. As organizações vencedoras não serão as que optarem entre investir em tecnologia ou investir em pessoas. Serão as que perceberem que essa escolha é falsa. As duas dimensões são inseparáveis. Sem pessoas, a IA não é adotada. Sem arquitetura, a IA não escala. Sem cultura, a transformação não ganha tração. Sem base digital, a ambição não se traduz em execução.
Adotar IA é inevitável. Transformá-la em crescimento sustentável, esse sim, continua a ser um ato de liderança estratégica. E exige mais do que entusiasmo tecnológico. Exige visão, confiança, talento preparado para evoluir e arquiteturas capazes de suportar a reinvenção. É na combinação entre inteligência tecnológica e inteligência organizacional que residirá o verdadeiro diferencial competitivo de 2026.